Economia Negócios
Legal Lab mostra como jurídico preventivo reduz riscos
Dados do CNJ e da Justiça do Trabalho indicam crescimento dos custos com litígios; modelo de acompanhamento contínuo passa a integrar estratégias d...
01/06/2026 10h30
Por: Redação Fonte: Agência Dino

A relação das empresas brasileiras com os serviços jurídicos passa por uma transformação estrutural. O modelo de consultoria jurídica preventiva — baseado em acompanhamento contínuo em vez de atuação reativa — tem sido adotado de forma crescente por organizações que buscam reduzir passivos, fortalecer a governança e ampliar a segurança nas operações comerciais.

Os dados do Poder Judiciário brasileiro evidenciam a dimensão do problema. Com a entrada de 39,4 milhões de novos processos judiciais em 2024, o volume de ações pendentes chegou a 80,6 milhões ao final do ano, conforme o Relatório Justiça em Números 2025 (ano-base 2024), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Na Justiça do Trabalho, o impacto financeiro é ainda mais expressivo. O custo da judicialização das relações de trabalho subiu 69% nos últimos quatro anos: em 2020, as empresas desembolsaram R$ 29 bilhões com execuções trabalhistas, pagamentos espontâneos e acordos; em 2024, essa despesa saltou para R$ 49 bilhões, de acordo com o Anuário da Justiça do Trabalho, com base no DataJud/CNJ.

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Os temas com maior incidência de ações em 2024 estão diretamente relacionados à rescisão de contrato de trabalho (30%), verbas remuneratórias e benefícios (16%) e duração do trabalho (15%) — matérias que podem ser endereçadas preventivamente antes de se converterem em litígios.

"A empresa que só aciona o jurídico quando o problema já aconteceu está sempre em desvantagem. Ela gasta mais, decide com menos informação e ainda carrega o passivo emocional de uma crise que poderia não ter existido", afirma Marcela Oliveira, advogada especializada em consultoria jurídica empresarial e fundadora da Legal Lab.

Da proteção ao posicionamento estratégico

O jurídico preventivo caracteriza-se como um modelo de acompanhamento contínuo que permeia as decisões do negócio — da revisão de contratos comerciais e societários à adequação de processos internos à legislação trabalhista, à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e às normas setoriais aplicáveis. A identificação prévia de cláusulas abusivas, riscos em acordos de parceria, fragilidades societárias e exposição trabalhista evita a formação de passivos e contribui para a tomada de decisão mais fundamentada.

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Um estudo de 2025 da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do Movimento Brasil Competitivo (MBC) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV) dimensiona esse impacto: a maior parte da economia gerada pela modernização trabalhista de 2017 decorreu da queda no número de novos processos — redução que gerou economia estimada de R$ 8 bilhões em 2022 e R$ 6 bilhões em 2023. Quando a litigiosidade voltou a crescer em 2024, os ganhos caíram para menos de R$ 700 milhões.

"Quando o jurídico está presente desde o início de uma operação, ele deixa de ser custo e passa a ser ativo estratégico. O contrato bem feito protege a receita. A política interna adequada protege a cultura. O compliance protege a reputação", ressalta a advogada.

Compliance como prática de gestão

Transformar compliance em cultura organizacional — e não em documento arquivado — continua sendo um dos principais desafios para empresas de diferentes portes. Programas efetivos precisam estar conectados à realidade operacional: treinamentos periódicos, canais de denúncia acessíveis, revisões contratuais sistemáticas e área jurídica que dialogue diretamente com as lideranças.

A LGPD, a Lei Anticorrupção e as exigências crescentes de ESG ampliaram a complexidade do ambiente jurídico-empresarial — e tornaram as consequências do descumprimento mais severas e mais visíveis.

"Compliance não é uma auditoria anual. É uma postura diária. E ela precisa começar pela liderança. Quando o gestor trata a conformidade como prioridade, toda a organização aprende a fazer o mesmo", destaca Oliveira.

Segurança jurídica como vantagem competitiva

Empresas com governança sólida e histórico limpo de litígios apresentam maior facilidade em acessar crédito, atrair investidores e firmar parcerias estratégicas. Em processos de fusões e aquisições (M&A), a due diligence jurídica figura entre os filtros mais determinantes: passivos ocultos, contratos mal redigidos ou ausência de compliance podem inviabilizar negociações ou comprometer o valuation da empresa.

Para pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV), quando há regras claras e respeitadas, todos se beneficiam: a Justiça atua com mais eficiência, as empresas planejam com maior segurança e o trabalhador tem garantias mais sólidas, conforme análise publicada no portal da Conjur.

"A empresa que cuida do jurídico preventivamente está construindo valor. Ela chega a uma rodada de investimento mais organizada, mais confiável e com menos surpresas. Isso tem preço — e é um preço positivo", acentua a especialista.

Adoção crescente entre empresas de médio porte

O modelo de consultoria jurídica integrada ao negócio tem registrado expansão, especialmente entre empresas de médio porte. Organizações que passaram por crescimento acelerado frequentemente identificam, em momentos de auditoria ou negociação, que sua estrutura jurídica não acompanhou o ritmo da operação — gerando exposições que poderiam ter sido mitigadas com acompanhamento preventivo.

O ambiente regulatório mais exigente, combinado ao aumento dos custos de litigiosidade, tem impulsionado a revisão dessa abordagem em diferentes setores da economia brasileira.