A saúde mental dos empreendedores brasileiros deixou de ser um tema periférico e passa a ocupar uma posição central na sustentabilidade dos negócios. Essa é a principal conclusão de um estudo teórico-empírico que resultou no artigo científico "Psicanálise Winnicottiana como pilar da jornada empreendedora: saúde mental do empreendedor como condição estrutural tanto para a sustentabilidade do negócio, quanto do ser".
A pesquisa foi desenvolvida pela pesquisadora, psicanalista e também empreendedora Deusa Marcon, profissional que atua há mais de 15 anos lado a lado com empreendedores no apoio à estruturação de seus negócios e foi buscar na psicanálise o embasamento técnico para a sustentação emocional de empreendedores e líderes. O estudo combina evidências empíricas acumuladas ao longo dessa trajetória com uma pesquisa qualitativa realizada em 2025, analisadas sob a ótica da psicanálise Winnicottiana.
A autora, que também é co-fundadora da Recíproka Estratégia, consultoria especializada no treinamento e desenvolvimento de lideranças com método Leading by Doing, afirma que a experiência prática em acompanhar os empreendedores, revelou um padrão recorrente: Decisões estratégicas críticas não são apenas técnicas, mas profundamente atravessadas por estados emocionais não elaborados. "Ao longo dos anos, ficou evidente que a performance dos negócios está diretamente relacionada à estabilidade emocional do empreendedor. Quando o negócio entra em crise, o próprio senso de identidade pode ser abalado", explica Deusa.
O empreendedorismo ocupa posição central no imaginário social contemporâneo, especialmente no contexto brasileiro, onde se consolidou como alternativa frente às instabilidades do mercado de trabalho formal. Segundo o Monitoramento Global de Empreendedorismo, o Brasil atingiu aproximadamente 42 milhões de empreendedores ativos, colocando o país entre os maiores ecossistemas empreendedores do mundo e segunda população com maior potencial empreendedor.
Esse crescimento convive com um paradoxo estrutural, visto que ao mesmo tempo em que se estimula a autonomia, criatividade e inovação, intensifica-se a exposição subjetiva do (a) empreendedor (a) a ambientes altamente instáveis, competitivos e emocionalmente invasivos. Nas últimas décadas, observou-se uma transformação significativa no perfil motivacional dos empreendedores brasileiros. O chamado empreendedorismo por necessidade, historicamente predominante, cede espaço ao empreendedorismo por oportunidade, associado ao desejo de realização pessoal, impacto social e construção de legado.
Essa transição não foi acompanhada por dispositivos institucionais de cuidado psíquico e sustentação emocional. O resultado manifesta-se no crescimento alarmante de indicadores de sofrimento mental, especialmente entre fundadores e líderes de pequenos e médios negócios. O recorte de gênero aprofunda essa análise. Mulheres empreendedoras já representam quase metade dos novos empreendimentos no país, mas enfrentam desafios adicionais relacionados ao acesso a capital, dupla ou tripla jornada e expectativas socioculturais contraditórias. Tais fatores favorecem estados de exaustão emocional e sentimento crônico de inadequação, como aponta o relatório Saúde e Performance de Pessoas Empreendedoras.
O Brasil conta com um dos maiores ecossistemas empreendedores do mundo, com milhões de pessoas à frente de negócios próprios. No entanto, essa realidade vem acompanhada de um ambiente marcado por instabilidade, volatilidade econômica e alta exigência de desempenho.
Os dados da pesquisa evidenciam os impactos dessa pressão:
O estudo também dialoga com dados institucionais que indicam que a grande maioria dos empreendedores já vivenciou sofrimento emocional relevante, incluindo ansiedade e burnout. Dados da Previdência Social apontam para crescimento de 800% do número de afastamentos por burnout em 4 anos, o que mostra que o Brasil atravessa uma grande crise de saúde mental no trabalho.
Um dos principais achados do estudo de Deusa Marcon é o contraste entre a narrativa pública de sucesso e a vivência emocional dos empreendedores. A Jornada do Herói, de Joseph Campbell é utilizada como base e, segundo a análise, muitos líderes sustentam uma imagem de força e invulnerabilidade, que funciona como uma adaptação às exigências do mercado, mas que pode comprometer sua saúde mental e limitar sua capacidade criativa. O resultado é um cenário em que o crescimento do negócio não elimina o sofrimento, mas muitas vezes, o intensifica. Por outro lado, o estudo também revela que para muitos empreendedores, mais do que crescer, o ideal passa a ser poder parar, desconectar sem culpa e preservar as relações e a saúde.
Uma nova abordagem: integrar estratégia e psicanáliseCom base na psicanálise Winnicottiana, o estudo introduz o conceito de "holding", um tipo de sustentação emocional que permite ao indivíduo atravessar situações de alta pressão sem se fragmentar. A partir dessa perspectiva, a autora desenvolveu o Método Copiloto Empreendedor, que propõe um modelo de acompanhamento que integra a tomada de decisão estratégica, o desenvolvimento do negócio e a sustentação emocional do empreendedor. A proposta parte de uma premissa central, a de que não há separação entre o negócio e o sujeito que o conduz. Em um contexto de crescimento do empreendedorismo e aumento de quadros de ansiedade, burnout e afastamentos por transtornos mentais, o estudo contribui para ampliar o debate sobre liderança, produtividade e inovação. Mais do que um tema de bem-estar, a saúde mental se apresenta como um fator determinante para a longevidade dos negócios e para a qualidade das decisões estratégicas.